Santa Maria da Feira

29-08-2025

a 220 km de casa...

🎧 Márcia, ainda bem

Há palavras que gritam. E há palavras que sussurram, que, mesmo ditas em voz alta, soam sempre como um murmúrio, como um segredo que se desvenda. O mesmo se passa com os lugares: há lugares que se impõem e outros que apenas se insinuam, que esperam por ser descobertos, sem urgência, até que um dia o tempo os revele. Não sei bem como é que encontrei Santa Maria da Feira, se primeiro cheguei à Casa e se foi a Casa que depois me levou ao Castelo, ao Convento dos Lóios, à Quinta e às fogaças, ou se foi a silhueta do Castelo, com as suas quatro torres apalaçadas, e o parque que povoa a encosta que me levaram a procurar a Casa. Seja como for, naquele dia, ao regressarmos de Serralves, em vez de continuarmos viagem, saímos da autoestrada em direção a Santa Maria da Feira (quantas vezes ali terei passado ignorando o que estava do lado de lá? Quantos quilómetros, quantas viagens de ida e volta a outros destinos terei feito sem saber como seria?). Lembro-me de ter pensado: então é isto Santa Maria da Feira? O castelo a dominar a paisagem, empoleirado no verde, tão verde, do parque feito de árvores, pontes e lagos, de bancos esculpidos como ramos que se entrelaçam, e a luz a perpassar o horizonte, como um véu que se levanta. Há uma palavra japonesa para designar a luz do sol que atravessa a folhagem: komorebi. E, naquele dia, à medida que o portão se abria, e a Casa surgia à nossa frente, os altos canaviais por onde o sol já baixo de fim de tarde se deixava enlear, fizeram-me pensar que talvez fosse isto a komorebi: uma luz quente, coada pela vegetação abandonada ao vento, como um convite à quietude. Não sei de onde terá derivado o nome Casa da Lavandeira, mas parece que há casas que vêm já com o nome dentro, e de imediato recordei o Ramalhete, a mesma "cor de musgo de outono" na sala de leitura, as mesmas "arcas góticas" e até a "cascata de louça na sala de jantar". Tudo pensado ao pormenor para receber. Nos quartos de inspiração japonesa em que ficámos alojados, pequenas placas com nomes explicavam o sentido do que ali tinha sido feito: yugen e kintsukuroi. A beleza das coisas, mesmo das coisas fragmentadas, como o tempo que passa, é uma lição maior. Eco dessa beleza, a paisagem lá fora confirmava que nada foi deixado ao acaso. O canavial ladeado por caquis, ginkgo biloba e cânforas, as amendoeiras, o lago e os jardins, os cadeirões entregues ao relvado a servir de âncora a momentos de contemplação, o barulho da água e o restolhar das folhas, tudo conjugado ao mais ínfimo detalhe. Tenho esta teoria de que o sítio que escolhemos para ficar, aquele centro nevrálgico de cada viagem, de onde depois partem as deambulações que nos levam à descoberta do destino, marca o timbre de toda a experiência. Tenho vindo a demonstrá-la com assinalável sucesso. E por isso Santa Maria da Feira terá sempre esse final de boca de luz quente de fim de agosto, de silêncio e calma. komorebi: é isto Santa Maria da Feira.       

ENTRE MURALHAS E AMEIAS

De tantas vezes o ver reproduzido, em livros, na promoção de eventos como a Viagem Medieval ou o Perlim, e até naquelas imensas placas castanhas que na berma das autoestradas nacionais anunciam o melhor do nosso património, parece que já lhe sabia de cor a silhueta, com as suas quatro torres de cobertura cónica e respetivos pináculos a salientarem-se acima do eirado. Mas, de perto, pareceu-me diferente. Não era só um espaço fortificado, um singular exemplar da arquitetura militar portuguesa, com origens que remontam ao século XI. Era uma presença física, com escadas gastas pelo tempo, com brasões a reivindicarem uma história pessoal, com fogões para aquecimento, instalados quando o Castelo, dotado de características de Paço Senhorial, foi habitado pelos Senhores da Feira. Era toda uma dimensão humana. Descemos e subimos escadarias sem fim, recolhemo-nos ao interior do salão ogival da alcáçova, debruçámo-nos nas janelas, detivemo-nos no forno ligado à tradição das fogaças oferecidas a São Sebastião para livrar a Vila da peste, descansámos junto ao fontenário seiscentista, encantámo-nos com a cerca, com os vários tipos de ameias e seteiras, e deleitámo-nos com a vista: o verde da Quinta do Castelo, o azul do céu recortado por nuvens altas e rápidas que no chão projetavam sombras como corpos. Entre escadas e seteiras, por corredores estreitos, portas e praças fomos descobrindo um Castelo feito de pedras e luz, aquela luz que escorria das aberturas estreitas e se insinuava por todo o espaço, como se percorresse um labirinto até dele se conseguir libertar para subir de novo em direção ao alto. Há algo nos lugares antigos que nos devolve um novo olhar, como se estar ali nos permitisse começar de novo. Respirámos fundo o ar puro e húmido da manhã que se erguia e seguimos estrada abaixo.     

UM SOLO COMUM

Bastou descrevermos uma curva apertada para encontrarmos, mesmo ali, cravada no seu sopé, a Quinta do Castelo. Verdadeiro jardim romântico, derramado encosta abaixo em luxuriantes tons de verde, entre árvores antigas, caminhos desenhados como num jogo de crianças, clareiras luminosas, grutas e pontes dispostas ao redor de lagos caprichosos, este parque centenário é como um presente que se recebe sem estarmos à espera. Não contávamos encontrar ali plátanos seculares, sequoias e tuias-gigantes, sobreiros e pinheiros-bravos, faias e carvalhos, bordos japoneses e butiás, e tantas outras espécies chegadas dos quatro cantos do mundo, numa inesperada confluência de paisagens, quase como se diferentes latitudes tivessem encontrado ali um solo comum. O som do vento nas copas das árvores, que acompanhava a nossa respiração, às vezes sem fôlego, às vezes apenas ávida por mais um pouco daquela exuberância, era o único eco que nos chegava da realidade, do mundo que continuava a existir lá fora, longe daquela geografia inventada. Aos nossos pés, a ponte entrelaçada sobre o lago, como um fosso a proteger a gruta, aquela gruta que parecia tudo engolir à sua volta, com dentes afiados e garras de pedra, surgia como uma passagem para um microcosmo, repleto de pequenos miradouros como minúsculas salas de estar, que permitiam ver o mundo de dentro para fora. Um universo pensado por Alexandre Brandão, o último proprietário privado destas terras, que, no início do século XX, encomendou à Companhia Agrícola-Hortícola do Porto um jardim de inspiração naturalista, que viria a transformar por completo o terreno situado na encosta nascente do Castelo, que herdara da tia, conhecida como "a senhora Mariquinhas do Castelo". 

UMA MOLDURA PARA A CIDADE

Regressando depois ao centro histórico, a dois passos da Quinta, o Museu Convento dos Lóios emoldura a cidade. Sentados num banco de jardim, demorámo-nos diante da sua fachada branca, das duas grandes torres sineiras da Igreja dedicada a São Nicolau, e do chafariz com taças sobrepostas que a seus pés remata uma escadaria monumental. Dedicado à história do concelho e da região, apresenta uma interessante coleção de arqueologia, história e etnografia, funcionando como um repositório de testemunhos e memórias. A visita desenrola-se em dois pisos, e há espaços em que se pode simplesmente ficar a contemplar a arquitetura do convento, a sua azulejaria e a atmosfera de que se mostra impregnado, tudo isto com vista para o claustro. A recriação das artes e ofícios da Terra de Santa Maria será uma das exposições mais sensoriais, com o cheiro das ervas aromáticas a dominar o espaço e a evocar memórias de outrora. Lá fora, seguindo pela Rua Dr. Roberto Alves, a viagem sensorial prossegue. Mesmo junto à Praça da República, as fogaças perfilam-se nas montras das pastelarias e os caladinhos, tão doces e macios, fazem cair em tentação até os menos devotos. Tínhamos ainda no palato o inconfundível sabor da fogaça que na Casa nos tinham servido ao pequeno-almoço, mas ainda assim abastecemo-nos de doces para levar na Pastelaria São Nicolau, para prolongarmos um pouco mais a viagem, que também se faz de sabores. A praça, que já tínhamos visitado na noite anterior, parecia estar em festa só para nos receber, com uma parada de bandeiras a desfilar nas varandas da Câmara Municipal, e a cidade parecia mover-se muito lentamente, no ritmo dos passos de quem a atravessava, apenas para dela desfrutar. Principal ponto de encontro da antiga Vila medieval, a Praça da República é ainda hoje o coração da cidade, rodeado pelo velho casario, hoje com flores penduradas nas varandas e publicidades luminosas a anunciar produtos e serviços. A calçada de pedra e as paredes austeras dos edifícios históricos que compõem a praça são testemunhas das metamorfoses que sofreu: no local onde antes estava o pelourinho, ergue-se hoje o chafariz com duas taças e tanque em forma de diamante, datado do século XVII e trazido do claustro do Convento dos Lóios; onde antes havia apenas espaço vazio para a vizinha Praça Dr. Gaspar Moreira, hoje o rosto esculpido por Vhils imprime contemporaneidade a um cenário que serve a vida atual. Um cenário em que podemos livremente ser figurantes, como parte de uma peça a acontecer.

VESTIR A NATUREZA

Seguindo para norte, encontrámos, a poucos quilómetros de Santa Maria da Feira, o Parque Ornitológico de Lourosa, outro presente que recebemos sem contar. Único no país dedicado exclusivamente a aves, o parque conta com cerca de 500 exemplares, de 150 espécies diferentes, distribuídos por 80 habitats. O som inebriante do canto das aves guiou-nos pelos caminhos de terra batida desenhados por entre a vegetação adaptada ao espaço e, logo ali, em frente ao mapa que ilustrava o Parque, decidimos o nosso destino: o reduto dos flamingos, onde às 16h00 iria ter lugar uma das experiências mais aguardadas pelos visitantes, especialmente os mais novos. Poder acompanhar os tratadores na tarefa de alimentar os flamingos e observar estas aves de perto, perceber os seus gestos, o ruído, tão alto, tão estridente, com que antecipavam o ritual da alimentação, a disputa pelo alimento, o movimento daquele grupo cor-de-rosa, tão elegante e altivo, é como vestir a pele da natureza por uns momentos e deixar-se envolver numa atmosfera em que tudo parece primordial. Mais adiante, os urubus, de presença quase teatral, as avestruzes, os casuares, vistosos e incrivelmente perigosos, os papagaios, as cegonhas e os pavões dão uma escala quase insólita ao percurso, tamanha é a diversidade de formas e personalidades dos curiosos seres que o habitam. E depois, o lago, esse espaço de calma, habitado por pelicanos-brancos, gansos-do-Havai e patos-mandarins, e rodeado de vegetação luxuriante, atravessada ao fim da tarde pela luz quente do sol de agosto. E uma vez mais, lembrei-me da tal palavra, dita em voz baixa, como um murmúrio, como um segredo que se desvenda: komorebi. Sim, talvez seja isto Santa Maria da Feira.

DICAS & INFORMAÇÕES ÚTEIS

Onde ficar: Zen & Art – Alojamento de Charme

Um alojamento de charme instalado na histórica Casa da Lavandeira, a poucos minutos a pé do Castelo de Santa Maria da Feira. Uma casa com mais de 300 anos, onde arte, design e tranquilidade se encontram, com nove quartos, alguns deles de autor e outros inspirados na estética japonesa. Tem piscina exterior, jacuzzi e estacionamento gratuito. Foi, naturalmente, a nossa escolha, e não poderíamos ter escolhido melhor.   

Onde comer: Praceta

No centro histórico de Santa Maria da Feira, é uma boa opção para uma refeição descontraída, com uma carta variada que inclui carnes, massas e pratos preparados em forno a lenha. Rua das Fogaceiras, n.º 15.

O que provar: Fogaça da Feira e caladinhos

Se a fogaça é a rainha incontestada da doçaria feirense, os caladinhos são talvez o seu segredo mais bem guardado. Nós descobrimo-los na Pastelaria São Nicolau e ficámos rendidos. Redondos, achatados e com uma fina crosta crocante, são feitos apenas de ovos, açúcar e farinha, sendo particularmente apreciados pela sua textura húmida no interior, que os torna perfeitos para acompanhar um café ou um chá. E depois há a história. Não se sabe ao certo de onde veio o nome, mas a memória popular conta que, durante o Estado Novo, um padeiro da Feira terá sido surpreendido pela polícia enquanto trabalhava de madrugada com os seus ajudantes. Com receio, mandou-os calar: "Chiu! Caladinhos!". Quando lhe perguntaram a razão daquele silêncio, terá respondido, improvisando, que estavam simplesmente a fazer caladinhos. A história ficou e o pequeno bolo acabaria por ganhar a fama de ter sido uma espécie de senha contra o regime.

Quando ir

Santa Maria da Feira vale a pena em qualquer altura do ano, mas é particularmente procurada em momentos especiais: a Viagem Medieval, no verão, e o Perlim, no período natalício. Se a ideia for conhecer a cidade com mais calma, provavelmente a melhor opção será evitar os grandes eventos. Nós escolhemos o verão para a nossa estadia, o que nos permitiu visitar todos os pontos de interesse com sol e temperaturas agradáveis e ainda usufruir dos espaços exteriores da Casa.

Quanto tempo

Um dia chega para conhecer os principais pontos de interesse do centro histórico, visitar o Castelo, o Convento dos Lóios e a Quinta do Castelo. Mas, se puder ficar uma noite, tanto melhor: Santa Maria da Feira é daquelas cidades que se revelam devagar e há muito nos arredores para explorar, como o Zoo da Lourosa, as Termas de São Jorge e os Passadiços do Rio Uíma.

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