Dublin, Irlanda
TRINITY COLLEGE, THE OLD LIBRARY & THE BOOK OF KELLS EXPERIENCE
Acordámos para uma manhã de céu azul, habitado aqui e além por nuvens brancas que mudavam a cada passo a luz e a aparência dos edifícios que iam desfilando perante nós. Ora resplandecentes, à medida que eram inundados pelo dia, ora ofuscados pela sombra húmida e fria que as nuvens lançavam sobre eles. O plano era dedicar a primeira manhã em Dublin à Old Library de Trinity College e à Book ok Kells Experience. Fundada em 1592 pela Rainha Elizabeth I, Trinity College é a universidade mais antiga da Irlanda e uma das mais antigas da Europa. Ocupa uma impressionante área de mais de 12 hectares e confunde-se com a história da cidade de que se fez centro. Com antigos alunos de renome como Samuel Beckett ou Oscar Wilde, Trinity College tem desempenhado um papel fundamental na vida de Dublin, elevada a "Cidade da Literatura" pela Unesco em 2010. A primeira impressão assim que chegámos foi a de que estávamos numa espécie de palco, de ambiente cénico, cruzado ao longo dos tempos por figuras e acontecimentos que moldaram a história. Um daqueles sítios especiais em que sentimos o devir do tempo, o dia que foi ontem e que afinal teve lugar há mais de 250 anos, quando um grupo de estudantes matou Edward Ford, vigilante da Universidade, a quem foi depois dedicada uma estátua junto ao Portão Principal, e cujo fantasma se diz ainda hoje rondar a Biblioteca durante a noite; ou o dia que foi ontem, esse dia em que, em 1911, foi admitida como estudante a primeira mulher em Trinity College; dias que, como o de hoje, nos trouxeram até este local, até este momento, até este agora. Dentro do edifício da Old Library é impossível não ficar deslumbrado com a Long Room, a maior biblioteca da Europa instalada numa única divisão, com cerca de 65 metros de cumprimento. Um túnel de livros, cravado em madeiras antigas, com escadas que se erguem em direção a uma altura maior que o tempo, a um céu impossível, que nos recorda que há tesouros que assombram, sejam eles livros, estátuas ou simplesmente o cheiro dos séculos que se adensa no ar. Apesar de muitos livros terem sido retirados para restauro (ao todo, a Biblioteca abriga cerca de 200.000) e de muitas prateleiras estarem vazias, o conjunto é tão impressionante que parece ter vida própria, e é tão rico que valerá sempre a pena visitá-lo. Para além da harpa medieval, feita de carvalho e salgueiro, que serviu de modelo para o símbolo nacional da Irlanda, a Biblioteca expõe ainda um dos poucos exemplares da Proclamação da República Irlandesa de 1916 e o famosíssimo Book of Kells. Temporariamente encontra-se também em exposição na Long Room a instalação "Gaia", obra de Luke Jerram, que oferece uma vista tridimensional do planeta, como se fosse observado a partir do espaço, num contraste perfeito entre a ancestralidade dos livros e a tecnologia das imagens de satélite da NASA, entre a minúcia da obra humana e a grandeza do universo. O destaque da Old Library vai, porém, para o Book of Kells e para a Book of Kells Experience. O book of kells é um manuscrito ricamente ilustrado, datado de cerca de 800 d.c., que contém os quatro evangelhos do Novo Testamento e que recebeu o nome da Abadia que foi a sua morada durante séculos, no Candado de Meath. Em 1953 foi encadernado em quatro secções separadas, para possibilitar a visualização das suas páginas ornamentadas ao lado do texto e está atualmente em exibição, em grande destaque e com fortes medidas de segurança, na Old Library. Figuras humanas, de animais e criaturas míticas, a par de nós celtas e padrões entrelaçados em cores vibrantes, dão vida às páginas do manuscrito, de que restam atualmente apenas 340 folhas de pergaminho. A cada 12 semanas são escolhidas duas novas páginas para exibição, mas existe uma versão digital que permite consultar todo o manuscrito. A história a ele associada é quase tão rica como as ilustrações que o ornamentam e envolve saques vikings e até um período em que terá estado enterrado, até ser enviado para Dublin em 1661 e entregue em Trinity College, lá permanecendo em segurança até aos dias de hoje. Estas e outras histórias fazem parte da experiência digital oferecida aos visitantes na Book of Kells Experience, instalada no Pavilhão Vermelho, no exterior da Old Library. É uma viagem imersiva ao universo do Livro, à sua história, contada com rigor e com imagens que nos transportam para o interior desta que é considerada uma obra-prima da arte insular. Mas Trinity College oferece mais aos seus visitantes, o campus é ele próprio uma atração. Com edifícios de diferentes épocas e estilos, adornado com jardins e árvores tão antigas como o tempo que ali se respira e repleto de esculturas que enriquecem a vista, é aqui que reside o maior conjunto monumental dos séculos XVIII e XIX de toda a Irlanda. Entre eles conta-se o Campanário, proeminente torre sineira, que com os seus 30 metros de altura, se assume como elemento chave do património arquitetónico da universidade, erguendo-se acima dos telhados e do verde que se espraia a seus pés, abrigando na sua sombra a estátua em bronze de William Lecky, reputado parlamentar irlandês, como que num jogo de silêncio, num dialogo sem falas, a que assistimos como espetadores, fora do tempo e do espaço. Esse espaço que depois nos assalta nas muitas esculturas que o campus acolhe, de que a obra "Sfera com Sfera" do artista italiano Arnoldo Pomodoro será apenas a mais conhecida. Vale a pena deixar-se ficar, absorver a atmosfera e deleitar-se com a vida que acontece em Trinity College. Hoje, como no século XVI, Trinity College será sempre o epicentro de algo acontecer.
TEMPLE BAR, HA´PENNY BRIDGE & THE SPIRE
Depois de um almoço em forma de piquenique nos jardins de Trinity College, seguimos para Temple Bar, o bairro mais famoso de Dublin, o local onde todos os caminhos vão dar, conhecido pela sua agitada vida noturna, mas também pelo seu irreverente cunho cultural. Vibrante, enérgica, repleta de pubs, restaurantes e galerias, a Dublin de Temple Bar revela-se tão colorida como as fachadas dos edifícios que se sucedem em vielas estreitas de feição medieval e tão eletrizante como o frenesim dos que a calcorreiam noite e dia. Preferimos galerias a pubs e por isso deixámos para trás o Temple Bar Pub (aberto desde 1840 e, dizem, com uma oferta de mais de 450 diferentes tipos de uísque) e abrigámo-nos na Temple Bar Gallery + Studios, um complexo composto por estúdios de artistas e uma galeria de arte contemporânea que oferece exposições temporárias interessantíssimas, como a que pudemos visitar, da artista polaca Katarzyna Perlak (Better a bare foot than none), com esculturas e instalações, muitas incorporando objetos do quotidiano, a evocar memória e saudade. Daí ao Rio Liffey é um saltinho. A zona deve aliás o seu nome a um antigo banco de areia (bar) e a Sir. William Temple, professor e filósofo, que escolheu o local para construir a sua morada. Cortando a cidade ao meio, como dois ventrículos de um coração que bate a uma só velocidade, o Liffey pressente-se por todo o lado, ramificando-se em vários canais que serpenteiam pelo espaço urbano, oferecendo margens sem fim, que apetece percorrer, e pontes feitas para atravessar. A mais icónica é sem dúvida a Ha´Penny Bridge. Construída no ano de 1816, toda em ferro, esta ponte pedonal foi oficialmente batizada como Wellinghton Bridge, mas acabou por ser chamada pelos dublinenses de Ha´Penny Bridge, já que para a atravessarem tinham de pagar de portagem ha´Penny. Foi por lá que seguimos em direção a O´Connell Street, uma das principais artérias da cidade, e lar de vários edifícios históricos, como a Agência Central dos Correios (essa mesmo onde em 1916, num dia 25 de Abril, foi lida a Proclamação da República), e de esculturas e estátuas que merecem um olhar atento e que celebram o passado da cidade. Para além de se poder avistar James Joyce, é também aqui que se encontra uma das mais altas esculturas do mundo, "The Spire", também conhecida como Torre do Milénio ou Monumento de Luz, uma gigante agulha com cerca de 120 metros de altura que parece desafiar as leis da física e que substituiu a antiga Coluna de Nelson, destruída por um atentado à bomba perpetrado em 1966 por antigos membros do IRA. O destino final do nosso períplo pela cidade neste dia ficaria um pouco mais à frente, junto ao Garden of Rememberance: a Hugh Lane Gallery.
HUGH LANE GALLERY
Instalada num edifício datado de 1763, a Hugh Lane Gallery, ou Dublin City Gallery como também é conhecida, situa-se na Parnell Square e é o lar, desde 1933, da coleção de arte de Hugh Lane. Mas a sua história começa muito antes. Em 1908, Hugh Lane fundou a primeira galeria pública de arte moderna do mundo, instalada de forma provisória na Rua Harcourt. A partir desse momento, iniciou uma longa e persistente batalha para assegurar, junto das autoridades irlandesas, o financiamento necessário que permitisse dar uma casa definitiva à sua coleção, especialmente dedicada ao Impressionismo francês. Em 1913, devido a um impasse nas negociações, Lane acabou por deixar em testamento a sua coleção à National Gallery de Londres. Com a sua morte, em 1915, no naufrágio do Lusitania, veio a saber-se que afinal Hugh Lane havia revertido tal disposição, o que causou acesa polémica com as autoridades britânicas, que se recusaram a abdicar das obras. A solução foi encontrada em 1959, já depois da instalação da Galeria na sua morada definitiva, que Hugh Lane nunca chegou a conhecer, com os dois países a acordarem num sistema de rotatividade das obras entre as duas galerias. Do acervo em exibição destacam-se obras de Manet, Degas, Renoir e os vitrais de Harry Clarke. A galeria alberga ainda o estúdio de Francis Bacon, que foi doado pela família do artista em 1998 à Hugh Lane Gallery, e para esse fim transportado desde Londres, com os seus mais de 7.500 objetos, com a recriação de todo o caos que lhe era inerente. Com o seu riquíssimo espólio, a Hugh Lane Gallery complementa a oferta dedicada aos antigos mestres da National Gallery e às criações contemporâneas do Irish Museum of Modern Art (IMMA), assumindo-se como um eixo fundamental no panorama cultural de Dublin. Um território de encontro entre a cidade e a arte que a habita.